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EDUCAÇÃO

Em Goiás, 36,9% saem da escola sem saber o básico

Quase 4 em cada 10 alunos da rede estadual de educação em Goiás saíram das escolas ao final do ensino médio, no ano passado, sem saber como converter 1 litro (l) de água para 1000 mililitro (ml) ou mesmo reconhecer qual o maior número entre um grupo no caso deles estarem representados em forma decimal. Os dados são do Sistema de Avaliação Educacional do Estado de Goiás (Saego), divulgados no fim da última semana, e são relativos às notas de proficiência em matemática dos alunos do 3º ano do ensino médio. Ou seja, o último ano ofertado pela rede, em que aproximadamente 60 mil alunos estiveram nas salas de aula desta série.

Assim, mesmo depois de todo o processo de formação escolar, esses estudantes têm aprendizagem em nível considerado muito crítico. O índice do Saego é de 36,9% dos alunos da rede estadual com notas menores que 250 em matemática, ou seja, cerca de 22 mil adolescentes. Os aprendizados relativos a cada nível de nota constam nas matrizes indicadas nas revistas dos professores de Matemática e Português divulgadas para a realização dos exames. No geral, a nota do Estado em 2018 foi de 268,1, o que mostra uma manutenção do nível crítico, que já ocorre desde 2011, ano da primeira realização da prova, quando se atingiu o resultado de 270,8 pontos.

Neste caso, mesmo que a média dos alunos saiba resolver problemas muito básicos, eles sequer conseguem acertar questões em que se tem soma ou subtração de números inteiros com sinais opostos. Se considerada a nota de 2017, em que se tem 271,4 pontos, Goiás teve uma piora de 3,3 pontos. Mesmo assim, a nota anterior, que foi a maior da série histórica, não trocou o patamar do ensino geral de matemática em Goiás, se mantendo como de nível crítico e ainda restando 28,6 pontos para se chegar ao menos no nível intermediário, com nota 300.

Ainda em relação à aprendizagem de matemática, os índices de 2018 mostram que apenas 25,3% dos estudantes de 3º ano do ensino médio da rede estadual conseguiram finalizar o ano como proficientes. Estes são os alunos com notas acima de 300 na prova do Saego. No entanto, só 5,9% do total tiveram notas consideradas avançadas, ou seja acima de 350 pontos, em uma escala que vai até 500. Neste caso, o que seria o esperado para a maior parte dos alunos seria o aprendizado de cálculo de área e volume e figuras geométricas espaciais, funções exponenciais e logarítmicas e até mesmo análise combinatória.

 

Português

Em relação à proficiência em língua portuguesa, também medido pelo Saego, os dados indicam que 19%, ou seja, quase 2 a cada 10 alunos, tiraram notas abaixo de 225, também considerado um nível muito crítico. No caso, são estudantes que finalizaram os estudos regulares no Estado sem ao menos saber reconhecer a finalidade de cartazes que encontram pelas ruas ou mesmo localizar informações explícitas em propagandas ou instruções de jogos. O geral da pontuação foi de 266,8, o que também deixa o Estado em nível crítico nesta matéria, e com uma queda de 4 pontos em relação a 2017.

Para língua portuguesa, é considerado o nível crítico quando a nota em geral não ultrapassa 275 pontos. Ou seja, os alunos terminam o ensino médio sem conseguir identificar ironias em textos literários e charges ou mesmo entender uma reportagem jornalística. Na série histórica, desde 2011, isso só chegou mais próximo em 2015, quando se teve a nota de 272,1. A situação geral, no entanto, é melhor do que no ensino de matemática, pois 45% dos alunos de 3º ano do ensino médio de 2018 conseguiram atingir o nível de proficiente, sendo que 10,1% do total tiveram aprendizado avançado, com notas acima de 325 pontos.

 

Avaliação

Secretária da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), Fátima Gavioli avalia como preocupante o resultado do Saego e o nível de aprendizagem. “O aluno está indo mal em matemática porque ele não entende regra de três, quando ele entender, vai descobrir que a maior parte das questões envolviam o uso de regra de três. O aluno que vai mal em língua portuguesa não entende de análise semântica e sintática para construir suas frases e saber que aqui é verbo, aqui é adjunto. E tudo isso que a gente falha, é importante”, diz.

Fátima acredita que um dos problemas no Estado para se chegar neste resultado é a falta de formação de professores, em que faltaria até mesmo bons professores da rede darem aula para os outros, em que estes possam aprender as metodologias. “A gente também sabe que está deixando os professores à mercê dessa formação. E como o professor no Brasil está muito longe de ter um salário que ele possa ter só um emprego, ele tem dois. Quando você fala em formação você bate de frente porque ou vai para a formação ou para o outro emprego”, ressalta.

“Nesses resultados a gente foca muito no aluno, mas na verdade a nossa responsabilidade no Estado, nesse caso da proficiência, é não cuidar da aprendizagem do professor para ele poder passar essa ensinagem”, considera. Ela também analisa que outro fator que possa ter influenciado a queda foi justamente o excesso de confiança em relação à média de 2017. “É muito possível que seja isso porque é comum. As pesquisas da Fundação Lemann indicam que quando um Estado sobe muito, o que antes era a regra de ir lá, ver cada caso, fazer as coisas, você deixa de fazer. Pode ser esse efeito primeiro lugar.”

Professor de matemática e ex-superintendente do Ensino Médio da Seduc, Fernando Pereira, que coordenou a primeira realização do Saego, explica que o problema é exatamente o quanto a nota é ruim. “É uma série histórica de oito anos e ainda estamos no nível crítico de proficiência. O que sabemos é que só 9% dos alunos aprendem o necessário de matemática e só 13% em português”, avalia.

Pereira diz que os resultados são capazes de causar interferência em cada aluno da rede, ver quais são suas dificuldades e buscar melhorá-las. Mas isso não tem sido feito.

 

Entorno do DF e Nordeste são as regionais que mais preocupam

Se o resultado médio das notas de proficiência em matemática e português no Sistema de Avaliação Educacional do Estado de Goiás (Saego) de 2018 é considerado preocupante ao avaliar toda a rede estadual, as notas das regionais do Entorno do Distrito Federal (DF) e no Nordeste goiano são ainda piores. Para se ter uma ideia, na regional de Águas Lindas, 51,9% dos alunos do 3º ano do ensino médio de 2018 finalizaram o ano letivo sem saber nem mesmo o básico em matemática. Além disso, apenas 12,3% dos alunos da regional citada saíram da escola proficientes na matéria.

Em Planaltina, o índice chega a 48,6% dos estudantes que não sabem o básico de matemática e só 14,4% estão no nível de proficiência considerado adequado. No mês de fevereiro, O POPULAR publicou reportagem em que se cruzou os dados da concentração do número de professores por alunos e o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), e verificou que as 20 cidades com mais de 30 estudantes por professor estão entre as piores notas no índice nacional. Entre elas, estava Águas Lindas, em que salas com capacidade para 29 alunos recebiam até 35.

A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) avalia que de fato há correlação entre os fatos. Fátima Gavioli, titular da pasta, considera que a falta de salas é um fator preponderante para o mau resultado. “Em Águas Lindas, Luziânia, Anápolis, que são cidades consideradas dormitórios, eu tenho quatro turnos em duas delas, que eles chamam de turno da fome. E tem dez anos isso. Então se é direito do aluno ter 800 horas de aula até o 9º ano e eu oferto a metade disso porque eu preciso liberar as turmas mais rápido para colocar as outras, ninguém pode dar o que não tem. Se ele recebe até a metade do conteúdo ele vai produzir até a metade”, avalia.

Assim, Fátima considera que a solução para o Entorno do DF “é construir sala de aula, é inaugurar aqueles escolas que estão paradas há muitos anos”. “O Entorno é o maior problema. É ele e o Nordeste. O Nordeste são as cidades que ficam até aqui na minha mesa a relação para eu lembrar todo dia”, diz. Na lista, há escolas estaduais nos municípios com baixo Índice Multidimensional de Carências das Famílias (ICMF), divulgado em fevereiro pelo Estado.

Além disso, a gerente de Avaliação da Rede Escolar, Márcia Carvalho, da Seduc, explica que as cidades do Entorno do DF também apresentam uma rotatividade grande de alunos e também de profissionais. “Não é o mesmo aluno que inicia o bimestre que vai fazer a prova no final do ano”, considera Márcia.

 

Goiás pode ter perda de posições no Ideb

Como a nota do Sistema de Avaliação Educacional do Estado de Goiás (Saego) é relativa ao ano anterior do que é feito o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que será realizado este ano, os técnicos em educação acreditam que o índice nacional pode espelhar o resultado do estadual. No entanto, não é possível prever a colocação do Estado no ranking, já que depende também dos desempenhos de outras unidades federativas. A estimativa da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), em razão da queda na nota deste ano, é que Goiás possa ficar abaixo dos cinco melhores Estados no próximo ranking.

Atualmente, Goiás ostenta a primeira colocação, conseguida com um resultado geral de apenas 4,3, mas superando o índice projetado, que era de 4,2, em uma escala que chegaria a até 10 pontos, em 2017. No caso, o topo do ranking veio com a maior nota histórica em matemática e a segunda melhor em português. O mesmo resultado nacional já havia chegado ao Estado no ano de 2013, mesmo com a nota de 3,8. À época, o Saego mostrou uma nota de 270 em português e 262,7 em matemática. Em relação ao Ideb, além das proficiências nas duas matérias, é levada em consideração o índice de evasão escolar e aprovação.

A professora Raquel Teixeira, que estava no cargo até o primeiro trimestre do ano passado, afirma que, ao analisar a série histórica de dados do Saego, se percebe que a queda na média geral é natural entre os anos ímpares e pares. Ela avalia, por outro lado, ter dificuldade em responder pelo período todo de 2018, por ter ficado apenas até março, mas que as trocas no comando da secretária podem sim justificar a queda na nota. “Teve um período de muita mudança, mais tumultuado, lógico que acaba interferindo”, diz.
Raquel indica ainda que, de toda forma, as notas do período em que saiu da secretaria foram maiores em relação a quando entrou. Após sua saída, assumiu o então superintendente, Marcos das Neves, depois substituído por Flávio Peixoto. A reportagem tentou contato com os dois outros gestores, mas as ligações não foram atendidas.

Quadro de notas

OP

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